Tuesday, 22 July 2008

DE PORTAS FECHADAS - A imigração ilegal e a nova lei aprovada pelo Parlamento Europeu




Words by: Adriano Espínola Filho
Ilustration by: Rodolfo França


Pa' una ciudad del norte / Para uma cidade do norte
Yo me fui a trabajar / Eu me fui para trabalhar
Mi vida la dejé / Minha vida eu deixei
Entre Ceuta y Gibraltar / Entre Ceuta e Gilbratar
Soy una raya en el mar / Sou uma risco no oceano
Fantasma en la ciudad / Fastasma na cidade
Mi vida va prohibida / Minha vida é proibida
Dice la autoridad / Disse a autoridade

trecho de Clandestino, de Mano Chao

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O Parlamento Europeu aprovou em Estrasburgo (França) uma nova lei relativa à imigração ilegal - para a preocupação de milhões de imigrantes que vivem no continente. A chamada Diretiva de Retorno vem acompanhada de muita controvérsia, dentro e fora da União Européia. Protestos ganharam as ruas de Londres, Lisboa, Paris e Luxemburgo com cartazes que estampavam slogans chamando a nova lei de “Diretiva da Vergonha”. Em Bruxelas, euro-deputados de esquerda se uniram a personalidades, como o compositor Mano Chao, para levantar a bandeira da livre circulação de pessoas e da não criminalização do imigrante sem documentos. Pedro Almodóvar, Penélope Cruz e o Prêmio Nobel de Literatura, o dramaturgo Italiano Dario Fo, também apoiaram o movimento.

A chamada Diretiva de Retorno estabelece novas regras e procedimentos para todos aqueles que são detidos em situação irregular dentro da União Européia. A nova lei, que entrará em vigor em dois anos, tem por objetivo uniformizar a legislação nos 27 países que formam o bloco.
O governo brasileiro foi um dos que lamentaram a decisão do Parlamento Europeu: “O Brasil, país que deu acolhida a milhões de imigrantes e descendentes, hoje harmoniosamente integrados na sociedade brasileira, lamenta uma decisão que contribui para criar percepção negativa da migração e vai no sentido contrário ao de uma desejada redução de entraves à livre circulação de pessoas e de um mais amplo e pleno convívio entre os povos”, disse comunicado do Itamaraty (ministério das relações exteriores).

Os principais pontos de controvérsia são dois. Primeiro, o imigrante que se encontra em situação irregular terá um prazo de 7 a 30 dias para voltar ao país de origem – independentemente do tempo em que estiver na Europa e da sua situação familiar. Depois do prazo, estará sujeito a um período de detenção de seis meses, prorrogáveis por mais 12 meses. E quando for expulso, a pessoa só poderá voltar à Europa depois de cinco anos.

Teme-se, porém, o aumento do número de centros de detenção na Europa, razão pela qual a Federação Internacional dos Direitos Humanos e a Anistia Internacional condenaram a aprovação da lei sem emendas (o Partido Verde e os socialistas apresentaram um total de dez emendas ao projeto original, principalmente no que diz respeito à diminuição do prazo para três meses, mas não obtiveram sucesso).
O segundo ponto polêmico é o seguinte: a nova lei estabelece que menores de idade desacompanhados e pessoas vulneráveis (idosos, grávidas e doentes) poderão também ser deportados – mesmo para países com os quais não tenham nenhuma ligação (um exemplo: se um menino da Tailândia tentar entrar no Reino Unido via Turquia, ele será mandado de volta para a Turquia).

A aprovação da Diretiva de Retorno significa que a Europa está fechando as portas para os imigrantes? Segundo o embaixador Flávio Perri, cônsul do Brasil em Londres, a nova lei apenas reafirma a tendência anti-imigração que assume cada vez mais importância na agenda política do continente: “a Europa há bastante tempo pratica um controle de fronteiras”, lembra o cônsul. “A diferença nesse momento é que, ao invés de haver políticas diferentes para cada país, a Europa define uma lei única para todo o continente. Claro que isso dificulta qualquer negociação, principalmente em caso de países que têm uma relação histórica – como é o caso entre Brasil e Portugal –, uma vez que agora cada caso deverá ser discutido com o bloco inteiro, não apenas com cada país em questão. Não podemos esquecer, porém, que cada país tem total autonomia para decidir quem deve ou não entrar no seu território. Não há nada que possamos fazer a respeito disso, a não ser aplicar o princípio da reciprocidade, que sempre foi a política do governo brasileiro em tais casos”.

No que depender dos líderes da União Européia, a composição musical de Mano Chao (cuja letra está no prólogo deste texto) continuará sendo um hino para os oito milhões de imigrantes ilegais que atualmente vivem no continente, atemorizados e sem direitos básicos, como saúde e educação.

Publicada na revista JungleDrums #59 Junho

Saturday, 12 July 2008

PELO UNDERGROUND - A vibrante cena cultural do metrô londrino ilustrada num livro

Foto Daisy Hutchison
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É impossível conceber a vida sobre Londres sem contar também com o que está sob ela. O underground, ou simplesmente tube, como os londrinos o costumam chamar, costura toda a cidade, de norte a sul, de leste a oeste. O mapa do metrô e seu colorido bordado é uma trama tão essencial no dia-a-dia da cidade que ele se tornou, assim como o Big Ben, um dos símbolos maiores de capital britânica.

O 'tube' não se presta apenas a levar as pessoas de um lugar a outro. Muita coisa acontece por entre seus intermináveis corredores, escadas rolantes e plataformas. No subterrâneo da cidade - por de trás da aparente indiferença das pessoas - existe também muita arte.

O underground tem uma longa história em abrigar obras de artistas famosos. Desde o surrealista Man Ray, no início dos anos 20, até artistas pop mais contemporâeos como Chiho Aoshima, a lista de exemplos é extensa. A brasileira Beatriz Milhazes expôs, em 2006, um painel enorme na estação de Glouster Road, que representava as horas do dia, indo do amanhecer ao anoitecer.

Os formatos para a expressão artística são variáveis. Vão desde o famoso mapa, de Harry Beck, ao mosaico na estação de Tottenham Court Road, de Eduardo Paolozzi. Sem contar as centenas de posters e instalações que trazem um pouco de arte à rotina estressante dessa cidade.

O Plataform for Art é um projeto que desde 2000 busca dar continuidade a essa tradição londrina e abriu espaço para instalações de grande porte nas plataformas do metrô. Agora, lança um bonito livro ditado pelo curador do programa amsin Dillon, om uma compliação os melhores trabalhos dos últimos anos. O livro inclui textos do crítico e arte Alex Coles, explorando as implicações do projeto e o papel da arte pública. Vale a pena conferir.


PLATFORM FOR ART
Black Dog Publishing , £19.50

Tuesday, 8 July 2008

Da rua para a galeria - Rodrigo Souto vai muito além dos muros

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Quem quer aparecer tem que chamar a atenção. Seja pelo humor, pela seriedade, pela originalidade ou pela irreverência. Não importa. Se o expectador continuar curioso, atento com que vem depois, o jogo já está, em parte, ganho.

Agora, imagina o sujeito se retratar atrás da rainha da Inglerra: ele pelado e ela, Elizabeth, rindo como quem acena inocentemente para o público. A mistura é tão inusitada, polêmica e engraçada que imediatamente me fez querer ver mais. Mas calma gente, não é putaria: é arte.

Rodrigo Souto é um artista que começou sua carreira grafitando pelas ruas de São Paulo. Realizou diversas intervenções pela cidade, participando inclusive do projeto "Ducontra", onde junto com sua trupe, invadiu um prédio abandonado para pintar e filmar tudo. Do material registrado – que inclui a relação dos grafiteiros com os sem teto do local – está sendo realizado um documentário. No campo social, deu aula de artes por dois anos para crianças carentes em Heliópolis, a segunda maior favela da América do Sul, mas sem nunca deixar de expor seus trabalhos por diversas galerias.

Após essa fase, Rodrigo dedicou-se à tatuagem, mudou-se para Londres e largou os muros. "Em Londres é mais difícil e perigoso encontrar muros para pintar", revelou o artista particularmente preocupado com a ostensiva cobertura da CCTV na cidade.

Agora o artista expressa-se través colagens onde elementos como o sagrado/religioso contrastam com o sensual/pecado. É justamente a tensão entre esses elementos que traz a tona a expressividade e força de sua obra, mostrando que seu talento pode evoluir para outras plataformas além do grafite.

Outro elemento recorrente nas colagens de Rodrigo são os selos. Pergunto a ele se isso não reflete o fato de estar morando fora do Brasil, sendo o selo uma metáfora para a distância: "Sim, claro”, responde. “Mas foi de uma maneira inconsciente que incorporei os selos no meu trabalho quando comecei a manter correspondência com um professor meu no Brasil, não foi algo pensado previamente”.

Para expor esse trabalho – já que falta muro – a galeria Macondo irá exibir as obras do artista em Londres durante todo o mês de Maio. O título da exposição não poderia ser outro: "A City without walls".

Ficha:

Rodrigo Souto tem 25 anos e é formado em Artes pela Fainc. Começou a expor em 2001 e desde então não parou mais. Já expôs em mais de 10 espaços diferentes em São Paulo, participando da edição Urbano de Arte Contemporânea do SCS e de uma exposição individual na Câmara Municipal de São Paulo.

Fez parte do documentário "Ducontra" onde um grupo de artista pintaram um imenso prédio abandonado em São Paulo.

A exposição no espaço Macondo trás colagens, aquarelas e pinturas e fazem parte de um projeto maior do artista.

Publicado na JungleDrums #57 maio 2008

Expandindo Paisagens

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Ele tentou separar uma briga e acabou levando um tiro. Sobreviveu e, com o dinheiro da indenização, comprou um bilhete e foi para os EUA. É, assim, que começa a história do artista brasileiro Vik Muniz, rumo à consagração como um dos grandes artistas contemporâneos.

Seu trabalho fi cou mais conhecido do público em geral ao retratar Seu Jorge no seu disco Cru (2004). Mas sua plataforma de trabalho é variada: quadros feitos com chocolate (lembra do CD dos Tribalistas?), fotografi as desenhadas com açúcar, desenhos feitos de arames, paisagens tecidas com linhas, nuvens desenhadas no céu. Parece estranho e, de fato, é; mas também é genial. E garanto: não é complicado. Como o artista mesmo afi rma “não preciso de ninguém para explicar o que eu faço”.

Pois Vik Muniz, junto com Mauro Restiffe, Miguel Rio Branco, Rochelle Costi, Rosângela Rennó e Rubens Mano fazem parte da exposição Disponha, na Gallery 32.

Em comum a esses artistas a idéia de expandir os limites da fotografi a para outras áreas do conhecimento. Miguel, por exemplo, explora a fusão entre realismo e poesia na sua série de fotografi as sobre boxeadores na década de 1990. Já Rubens Mano - cujo trabalho “Disponha” empresta nome à exibição - refl ete sobre a interação entre o artista, a obra e o meio que a cerca.

Vik Muniz, por sua vez, expõe um trabalho de grandes proporções, inspirado na Land Art. A exibição é um projeto colaborativo entre a Embaixada do Brasil e o Museu Inhotim, de Minas Gerais. Fique esperto e conheça mais do trabalho desses grandes artistas brasileiros, que estão dando o que falar mundo afora.




Princesas na terra da rainha

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Grupo feminino de samba é coroado em Londres


Confesso que, quando primeiro ouvi falar que um grupo chamado Samba de Rainha vinha para Londres tocar no carnaval, pensei: − Ih, mais um grupo de samba com mulheres semi-nuas para reforçar o estereótipo. Não que eu tenha algo contra as mulheres semi-nuas no carnaval, muito pelo contrário. Mas, convenhamos: a imagem da mulata sambando em micro-roupas já está bastante batida. Além do que, o universo do carnaval vai muito além da Marquês de Sapucaí.

Dito isso – após ter confessado aqui o meu preconceito −, posso também admitir a satisfação de estar errado. Bastou pesquisar um pouquinho mais sobre a banda, para descobrir a originalíssima idéia por trás de um grupo de samba formado só por mulheres. E o original se encontra justamente aí: a mulher no grupo não é apenas um adorno, motivo de inspiração ou objeto sexual. Ela assume o papel principal, reinventando um espaço tradicionalmente ocupado apenas por homens. Perguntadas se nunca sofreram algum tipo de preconceito por conta disso, Érica, que toca rebolo, respondeu: “Às vezes, acontece, sim, sob a forma de olhares desconfiados; você sente, mas é só o show começar para as pessoas se renderem à nossa alegria e amor ao que fazemos”.

O grupo começou como uma brincadeira em casa e acabou virando coisa séria. “Depois disso, tocamos em aniversários e eventos particulares, mas quando nos demos conta, estávamos tocando em eventos de rua, como na Festa União, na quadra da Rosas de Ouro, no Boteco Bohemia, em bares e casas de show; aí não paramos mais” – diz, orgulhosa, Érica à equipe da Jungle.

Agora chegou a vez das meninas fazerem bonito aqui em Londres.