Tuesday, 1 December 2015
What are you laughing at?
É que a risada do inglês não é aberta como a do brasileiro; é discreta e, muitas vezes, corrosiva. No pub onde trabalhava, convivia com os mais típicos exemplares dessa singular espécie. Inglês está sempre pronto para um comentário irônico – é a certeza que tenho que meus fregueses não me poupariam caso lessem essa matéria.
Mas o riso se revela, também, universal. Se existe um típico humor inglês, brasileiro, chinês ou russo, será que não existiria, do mesmo modo, um tipo humor que permearia toda e qualquer sociedade? Se esse tipo de humor existe, qual seria ele? De que forma o humor pode ser entendido quando não se compartilham as mesmas referências culturais? Seria através da macacada? Da ironia? Da sátira?
Para investigar o assunto – que é da maior seriedade – realizou-se no Southbank Centre, a exposição Laughing in a Foreign Language ("Rindo numa Lingua Estrangeira). A idéia foi justamente indagar se o humor poderia somente ser apreciado por pessoas com memórias e antecedentes similares - em termos culturais, políticos e históricos -, ou, para além disso, o riso poderia se tornar também um meio para se entender o outro, o desconhecido. A exposição contou com mais de 70 vídeos, fotografias e instalações interativas feitos por 30 artistas de diferentes nacionalidades.
Tuesday, 9 September 2008
Na Marca do Penalti

Quem não se lembra daquele menino cabeçudo e olhar pidão que comoveu platéias mundo afora ao lado de Fernanda Montenegro em Central do Brasil? Pois agora, dez anos depois, ele mesmo, Vinícius de Oliveira, volta à cena em Linha de Passe (2008), o mais novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas.
Praticamente irreconhecível em comparação à sua estréia no cinema (tanto pela atuação quanto pela fisionomia), Vinícius agora faz o papel de Dário, um jovem aspirante a jogador de futebol que, junto com seus três irmãos, luta para sobreviver na dura realidade da cidade de São Paulo. Na trama, destaque também para a Sandra Corveloni, ganhadora do prêmio de melhor atriz em Cannes por seu papel como Cleuza, a mãe dos rapazes.
Segundo os diretores, o filme nasceu do desejo de fazer um retrato atual da realidade brasileira. Walter Salles e Daniela Thomas voltam a trabalhar juntos doze anos após a parceria em Terra Estrangeira (1996). Tanto Terra Estrangeira quanto Linha de Passe estão centrados na questão da juventude, mas enquanto o filme de 1996 abordava a vida dos jovens que deixavam o Brasil em busca de um futuro melhor logo após o governo Collor (1992), o novo trabalho da dupla lança um olhar sobre o país de hoje, um Brasil com altas taxas de desemprego onde o futebol, a religião e o crime são alternativas para a pobreza e a falta de expectativa.
Diferentemente de filmes da recente cinematográfica brasileira, onde a glamorização da violência enche os olhos do público internacional, Linha de Passe, muito pelo contrário, traz um olhar cru e desolado sobre realidade dos jovens de classe baixa da periferia de São Paulo. Não é um filme feito para divertir, seu mérito está na pesquisa sociológica e na construção psicológica dos seus personagens. Para quem espera do diretor algo a ver com Central do Brasil, Abril Despedaçado (2001) ou Diários de Motocicleta (2004), pode esquecer.
PROFILE:
Walter Salles Filho do banqueiro e embaixador Walter Moreira Sales, Waltinho, como também é conhecido, cursou cinema na University of Southern California School of Cinematic Arts. Seu primeiro sucesso veio justamente da parceria com Daniela Thomas no longa Terra Estrangeira (1996). Central do Brasil (1998) é um grande sucesso nacional e internacional, vencendo do Urso de Ouro em Berlim e do Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro. Em 2001, Salles lança Abril Despedaçado. Diários de Motocicleta com Gael Garcia Bernal é o primeiro filme em língua estrangeira filmado por Walter. O sucesso mundial de público e de crítica o colocam entre os 40 melhores diretores em atividade. Está previsto para 2009 o lançamento de On the Road, baseado no livro homônimo de Jack Kerouac. Fracis Ford Coppola será o produtor e Walter Salles o diretor.
Para saber mais:
http://www.linhadepasse.co.uk
Publicado na JungleDrums #61
English version here.
Saturday, 30 August 2008
Manchester à Vista!

Cheguei hoje em Manchester. Depois de arrumar as malas melancolicamente, dei as costas para meu quartinho em Hackney e segui de trem rumo ao norte, interior da Inglaterra. Confesso que deixar uma cidade como Londres não é algo fácil. Não que eu não estiviesse feliz de estar vindo para cá, mas sim pelo fato de abandonar uma lugar incrível onde aprendi tanto. Londres, como dizia Santiago, meu amigo mexicano, uma desses cidades míticas.
Deixei para trás também meus tempos de jornalista na JungleDrums. Foram muitos meses desde o primeiro dia que entrei na redação, com o deslumbramento de calouro de universidade, até minha saída, ontem, já desmistificado e mais ciente das malandragens e engrenagens que movem a mídia. O faro para a notícia, os contatos, os ratos que correm soltos na área.
Nesses dez meses muitas outras coisas aconteceram, fui para o Brasil, voltei, viajei pela República Checa, Praga, Jicin; Alemanha, Berlim.
Desse tempo todo que passei em Londres a tristeza maior foram os amigos que se foram, pessoas que na falta da família se tornaram pais, mãe, tias, meus primos, cunhados, irmãos. Voltaram para suas cidades, lugares perdidos espalhados pelo mundo afora: Chile, Argentina, México, Colômbia, Rússia, França, Espanha , Portugal, China, Japão, Cazaquistão, Taiwan, Hong Kong. Todos jovens e aventureiros que, como eu, resolveram se jogar no mundo e escolheram o epicentro do turbilhão.
Quando saí da minha casa me senti bem. Um mochilão nas costas, uma mala numa mão e a bicicleta na outra.
A grande virada se deu quando, no trem, vi o filme do Martin Scorcese sobre o show do Rolling Stones no Beacon Theatre em Nova York, lançado esse ano. O filme é uma mistura de documentário, mostrando antigas entrevistas dos Stones e gravação do concerto. Brilhante. O que falar do Mick Jagger? O cara é foda. Sessenta e cinco anos e continua lá munrático.
O Matin Scorcese, que também aparece no filme, ta muito bem. Uma hora o iluminador chega para ele e diz que o holofote principal não pode ficar mais de oito segundos aceso em cima do Mick Jagger, se não iria queimá-lo. Scorcese se vira e diz sério: Como assim, não pode ficar mais de oito segundos se não torra o Mick Jagger? A gente não pode torrar o Mick Jagger!
O filme mostra que os Rolling Stones continuam - são (e sempre serão) umas das estrelas maiores do Rock'n Roll. Sobreviventes de toda loucura possível(imagino que não deve ter sido pouca) não perderam o rebolado, o prazer de tocar, a vocação para Rock'n Roll.
Mal acabou o filme o speaker anuncia: We are shortely ariving Manchester Piccadily Station our final destination.
Sai no saguão com aquela tralha todo e me enfiei com e bicicleta e tudo no primeiro black cab que encontrei. Notei que o taxista estava escutando baixinho Buffalo Soldier no rádio. Perguntei se ele podia aumentar. Ele deu uma risada e colocou bem alto pra gente vir curtindo um Bob na direção da minha nova casa. Quando cheguei tinha uns quatro ou cinco jovens na entrada da casa em frente a minha, colocando e tirando coisas de dentro. O Landlorde não tinha chegado ainda e tive que ficar do lado de fora esperando por ele. Os cabeludos pareciam ser legais e eu estava chegando cheio de mala, bicicleta e aquela cara de novato na área. Inevitável trocar uma idéia.
Estavam todos na verdade deixando a casa. Um com quem eu conversei fez um curso de cinema aqui e estava cansado de Manchester, morava aqui fazia quatro anos. No final da conversa acabei com todos os utensílios da cozinha que eles tinham em casa, pratos, panelas, copos, etc e mais uma boa quantidade de comida. Foi uma acolhida bem calorosa e uma puta coincidência dos caras estarem se mudando na mesma hora que eu estava chegando. Amanhã chegam os dois caras com quem vou dividir a casa. Vou esperar pra ver o que essa cidade guarda pro futuro, até agora all rolling.
Sunday, 17 August 2008
Toda Nudez Será Castigada

A obra de Nelson Rodrigues tem importância fundamental na dramaturgia brasileira. E para quem nunca leu, uma dica: - leia. Obras como Engraçadinha, Beijo no Asfalto, Vestido de Noiva e Álbum de Família se tornaram clássicos no Brasil, tanto no teatro, quanto no cinema e na TV. Ao retratar a vida no subúrbio do Rio de Janeiro, com seus personagens quase irreais e sempre no limite, num estilo único e provocador, Nelson revelou paixões e loucuras do homem urbano de uma forma inovadora e contundente. Seus temas preferidos: repressão sexual, hipocrisia, culpa, incesto, homofobia, racismo e o sensacionalismo da imprensa.
Apesar de ainda ser pouco conhecida do público britânico, a obra rodriguiana possui todos os elementos para fazer sucesso internacional. Como afirma o diretor Bruno Barreto: “Tenho certeza que se ele tivesse escrito em inglês, Nelson Rodrigues seria tão importante quanto Tenessee Williams, O’Neil ou Pinter, pelo caráter universal, atemporal e subversivo da sua obra".
Toda Nudez foi encenada pela primeira vez em 1965, no Rio de Janeiro. É uma peça trágica que busca revelar os medos e obsessões da sociedade na sua relação com o sexo, dinheiro, poder e morte. A trama gira em torno do drama da prostituta Geni, obcecada com a idéia de morrer de câncer no seio, um pai sexualmente reprimido, um irmão golpista e um filho mimado pelas tias. O aspecto trágico, porém, nunca está dissociada de um humor corrosivo, como é característico dos textos do autor.
Quem nunca teve a oportunidade de entrar em contato com o universo desse gênio brasileiro, a oportunidade está dada. E para quem já conhece, é batata.
Publicado na JungleDrums #58
Wednesday, 6 August 2008
Rivane Neuenschwander

English version here.
Tuesday, 22 July 2008
DE PORTAS FECHADAS - A imigração ilegal e a nova lei aprovada pelo Parlamento Europeu

Words by: Adriano Espínola Filho
Ilustration by: Rodolfo França
Pa' una ciudad del norte / Para uma cidade do norte
Yo me fui a trabajar / Eu me fui para trabalhar
Mi vida la dejé / Minha vida eu deixei
Entre Ceuta y Gibraltar / Entre Ceuta e Gilbratar
Soy una raya en el mar / Sou uma risco no oceano
Fantasma en la ciudad / Fastasma na cidade
Mi vida va prohibida / Minha vida é proibida
Dice la autoridad / Disse a autoridade
trecho de Clandestino, de Mano Chao
English version here
O Parlamento Europeu aprovou em Estrasburgo (França) uma nova lei relativa à imigração ilegal - para a preocupação de milhões de imigrantes que vivem no continente. A chamada Diretiva de Retorno vem acompanhada de muita controvérsia, dentro e fora da União Européia. Protestos ganharam as ruas de Londres, Lisboa, Paris e Luxemburgo com cartazes que estampavam slogans chamando a nova lei de “Diretiva da Vergonha”. Em Bruxelas, euro-deputados de esquerda se uniram a personalidades, como o compositor Mano Chao, para levantar a bandeira da livre circulação de pessoas e da não criminalização do imigrante sem documentos. Pedro Almodóvar, Penélope Cruz e o Prêmio Nobel de Literatura, o dramaturgo Italiano Dario Fo, também apoiaram o movimento.
A chamada Diretiva de Retorno estabelece novas regras e procedimentos para todos aqueles que são detidos em situação irregular dentro da União Européia. A nova lei, que entrará em vigor em dois anos, tem por objetivo uniformizar a legislação nos 27 países que formam o bloco.
O governo brasileiro foi um dos que lamentaram a decisão do Parlamento Europeu: “O Brasil, país que deu acolhida a milhões de imigrantes e descendentes, hoje harmoniosamente integrados na sociedade brasileira, lamenta uma decisão que contribui para criar percepção negativa da migração e vai no sentido contrário ao de uma desejada redução de entraves à livre circulação de pessoas e de um mais amplo e pleno convívio entre os povos”, disse comunicado do Itamaraty (ministério das relações exteriores).
Os principais pontos de controvérsia são dois. Primeiro, o imigrante que se encontra em situação irregular terá um prazo de 7 a 30 dias para voltar ao país de origem – independentemente do tempo em que estiver na Europa e da sua situação familiar. Depois do prazo, estará sujeito a um período de detenção de seis meses, prorrogáveis por mais 12 meses. E quando for expulso, a pessoa só poderá voltar à Europa depois de cinco anos.
Teme-se, porém, o aumento do número de centros de detenção na Europa, razão pela qual a Federação Internacional dos Direitos Humanos e a Anistia Internacional condenaram a aprovação da lei sem emendas (o Partido Verde e os socialistas apresentaram um total de dez emendas ao projeto original, principalmente no que diz respeito à diminuição do prazo para três meses, mas não obtiveram sucesso).
O segundo ponto polêmico é o seguinte: a nova lei estabelece que menores de idade desacompanhados e pessoas vulneráveis (idosos, grávidas e doentes) poderão também ser deportados – mesmo para países com os quais não tenham nenhuma ligação (um exemplo: se um menino da Tailândia tentar entrar no Reino Unido via Turquia, ele será mandado de volta para a Turquia).
A aprovação da Diretiva de Retorno significa que a Europa está fechando as portas para os imigrantes? Segundo o embaixador Flávio Perri, cônsul do Brasil em Londres, a nova lei apenas reafirma a tendência anti-imigração que assume cada vez mais importância na agenda política do continente: “a Europa há bastante tempo pratica um controle de fronteiras”, lembra o cônsul. “A diferença nesse momento é que, ao invés de haver políticas diferentes para cada país, a Europa define uma lei única para todo o continente. Claro que isso dificulta qualquer negociação, principalmente em caso de países que têm uma relação histórica – como é o caso entre Brasil e Portugal –, uma vez que agora cada caso deverá ser discutido com o bloco inteiro, não apenas com cada país em questão. Não podemos esquecer, porém, que cada país tem total autonomia para decidir quem deve ou não entrar no seu território. Não há nada que possamos fazer a respeito disso, a não ser aplicar o princípio da reciprocidade, que sempre foi a política do governo brasileiro em tais casos”.
No que depender dos líderes da União Européia, a composição musical de Mano Chao (cuja letra está no prólogo deste texto) continuará sendo um hino para os oito milhões de imigrantes ilegais que atualmente vivem no continente, atemorizados e sem direitos básicos, como saúde e educação.
Publicada na revista JungleDrums #59 Junho
Saturday, 12 July 2008
PELO UNDERGROUND - A vibrante cena cultural do metrô londrino ilustrada num livro