Saturday, 30 August 2008

Manchester à Vista!


Cheguei hoje em Manchester. Depois de arrumar as malas melancolicamente, dei as costas para meu quartinho em Hackney e segui de trem rumo ao norte, interior da Inglaterra. Confesso que deixar uma cidade como Londres não é algo fácil. Não que eu não estiviesse feliz de estar vindo para cá, mas sim pelo fato de abandonar uma lugar incrível onde aprendi tanto. Londres, como dizia Santiago, meu amigo mexicano, uma desses cidades míticas.

Deixei para trás também meus tempos de jornalista na JungleDrums. Foram muitos meses desde o primeiro dia que entrei na redação, com o deslumbramento de calouro de universidade, até minha saída, ontem, já desmistificado e mais ciente das malandragens e engrenagens que movem a mídia. O faro para a notícia, os contatos, os ratos que correm soltos na área.

Nesses dez meses muitas outras coisas aconteceram, fui para o Brasil, voltei, viajei pela República Checa, Praga, Jicin; Alemanha, Berlim.

Desse tempo todo que passei em Londres a tristeza maior foram os amigos que se foram, pessoas que na falta da família se tornaram pais, mãe, tias, meus primos, cunhados, irmãos. Voltaram para suas cidades, lugares perdidos espalhados pelo mundo afora: Chile, Argentina, México, Colômbia, Rússia, França, Espanha , Portugal, China, Japão, Cazaquistão, Taiwan, Hong Kong. Todos jovens e aventureiros que, como eu, resolveram se jogar no mundo e escolheram o epicentro do turbilhão.

Quando saí da minha casa me senti bem. Um mochilão nas costas, uma mala numa mão e a bicicleta na outra.

A grande virada se deu quando, no trem, vi o filme do Martin Scorcese sobre o show do Rolling Stones no Beacon Theatre em Nova York, lançado esse ano. O filme é uma mistura de documentário, mostrando antigas entrevistas dos Stones e gravação do concerto. Brilhante. O que falar do Mick Jagger? O cara é foda. Sessenta e cinco anos e continua lá munrático.

O Matin Scorcese, que também aparece no filme, ta muito bem. Uma hora o iluminador chega para ele e diz que o holofote principal não pode ficar mais de oito segundos aceso em cima do Mick Jagger, se não iria queimá-lo. Scorcese se vira e diz sério: Como assim, não pode ficar mais de oito segundos se não torra o Mick Jagger? A gente não pode torrar o Mick Jagger!

O filme mostra que os Rolling Stones continuam - são (e sempre serão) umas das estrelas maiores do Rock'n Roll. Sobreviventes de toda loucura possível(imagino que não deve ter sido pouca) não perderam o rebolado, o prazer de tocar, a vocação para Rock'n Roll.

Mal acabou o filme o speaker anuncia: We are shortely ariving Manchester Piccadily Station our final destination.

Sai no saguão com aquela tralha todo e me enfiei com e bicicleta e tudo no primeiro black cab que encontrei. Notei que o taxista estava escutando baixinho Buffalo Soldier no rádio. Perguntei se ele podia aumentar. Ele deu uma risada e colocou bem alto pra gente vir curtindo um Bob na direção da minha nova casa. Quando cheguei tinha uns quatro ou cinco jovens na entrada da casa em frente a minha, colocando e tirando coisas de dentro. O Landlorde não tinha chegado ainda e tive que ficar do lado de fora esperando por ele. Os cabeludos pareciam ser legais e eu estava chegando cheio de mala, bicicleta e aquela cara de novato na área. Inevitável trocar uma idéia.

Estavam todos na verdade deixando a casa. Um com quem eu conversei fez um curso de cinema aqui e estava cansado de Manchester, morava aqui fazia quatro anos. No final da conversa acabei com todos os utensílios da cozinha que eles tinham em casa, pratos, panelas, copos, etc e mais uma boa quantidade de comida. Foi uma acolhida bem calorosa e uma puta coincidência dos caras estarem se mudando na mesma hora que eu estava chegando. Amanhã chegam os dois caras com quem vou dividir a casa. Vou esperar pra ver o que essa cidade guarda pro futuro, até agora all rolling.

Sunday, 17 August 2008

Toda Nudez Será Castigada



A obra de Nelson Rodrigues tem importância fundamental na dramaturgia brasileira. E para quem nunca leu, uma dica: - leia. Obras como Engraçadinha, Beijo no Asfalto, Vestido de Noiva e Álbum de Família se tornaram clássicos no Brasil, tanto no teatro, quanto no cinema e na TV. Ao retratar a vida no subúrbio do Rio de Janeiro, com seus personagens quase irreais e sempre no limite, num estilo único e provocador, Nelson revelou paixões e loucuras do homem urbano de uma forma inovadora e contundente. Seus temas preferidos: repressão sexual, hipocrisia, culpa, incesto, homofobia, racismo e o sensacionalismo da imprensa.

Apesar de ainda ser pouco conhecida do público britânico, a obra rodriguiana possui todos os elementos para fazer sucesso internacional. Como afirma o diretor Bruno Barreto: “Tenho certeza que se ele tivesse escrito em inglês, Nelson Rodrigues seria tão importante quanto Tenessee Williams, O’Neil ou Pinter, pelo caráter universal, atemporal e subversivo da sua obra".

Mas o tempo há de fazer justiça ao autor. Está sendo montada a peça Toda Nudez Será Castigada( All Nudity Shall Be Punished), dirigido por Kwong Loke pela companhia StoneCrabs. A peça segue o sucesso de crítica alcançado pela montagem de Walts #6, em 2005 (‘Brazilian Magic’ - Time Out; ‘startling poetry’ – The Guardian) e Our Lady of The Drowned, em 2006 (a wonderful discovery” – Time Out Critic’s Choice; “Lunacy a la Blood Wedding and just as thrilling” – Metro Critic’s Choice).

Toda Nudez
foi encenada pela primeira vez em 1965, no Rio de Janeiro. É uma peça trágica que busca revelar os medos e obsessões da sociedade na sua relação com o sexo, dinheiro, poder e morte. A trama gira em torno do drama da prostituta Geni, obcecada com a idéia de morrer de câncer no seio, um pai sexualmente reprimido, um irmão golpista e um filho mimado pelas tias. O aspecto trágico, porém, nunca está dissociada de um humor corrosivo, como é característico dos textos do autor.

Quem nunca teve a oportunidade de entrar em contato com o universo desse gênio brasileiro, a oportunidade está dada. E para quem já conhece, é batata.

Publicado na JungleDrums #58

Wednesday, 6 August 2008

Rivane Neuenschwander


English version here.

Como um bloco carnavalesco absurdo, cada formiga morde um confete dez vezes o seu tamanho, ergue-o acima da cabeça e segue adiante. As pequenas criaturas então desfilam ritmadas ao batuque de um samba tocado em caixa de fósforos, celebrando um carnaval como nunca se viu. Uma por uma, terminam o desfile terra adentro levando consigo seu colorido tesouro (a quem diga que ainda enfeitarão o quarto da rainha).

A cena acima não é de nenhum filme surrealista. Trata-se na verdade da obra "Quarta-Feira de Cinzas", vídeo da artista plástica Rivane Neuenschwander, parte do acervo permanente da TATE Modern. Ela já foi definida como "uma condutora de orquestras invisíveis", sua arte une o efêmero com sensualidade e rigor e levanta questões relativas à sorte, temporalidade, natureza e linguagem.

Muitas vezes suas obras são também interativas, como em "Story of Other" (2005), criada para a Bienal de Veneza de 2005 e exibida novamente na sua exposição solo em Nova York "Other Stories and Stories of Others". Nela, uma máquina de escrever modificada produz símbolos e pontos onde o expectador é convidado a participar, sendo a obra final o resultado da interação do público com a mesma.

Seguindo o sucesso internacional, a South London Gallery se prepara para abrigar uma exposição solo da artista mineira. Rivane pretende transformar, completamente, o espaço da galeria numa instalação monumental, sem deixar de incorporar elementos minimalistas tão característicos a seu trabalho. A instalação tomará o imenso hall central da SLG que será modificado para, também, abrigar um segundo andar temporário da exposição.

Perfil

Rivane Neuenschwander nasceu em 1967, em Belo Horizonte. Graduaduou-se em Belas Artes pela UFMG e é Mestre em Artes pela Royal College of Art, London.

Das várias exposições individuais que participou ao redor do mundo, podemos destacar Stephen Friedman Gallery, London (1999), Syndrome: Rivane Neuenschwander, Stockholm, Sweden(2000), Other Stories and Stories of Others, Tanya Bonakdar Gallery, New York, USA (2006) e as coletivas When Lives Become Form: Creative Power from Brazil, Museum of Contemporary Art Tokyo, Japan e Comic Abstraction: Image-Breaking, Image-Making, MoMA, New York, USA.

Trabalhou em conjunto do artista plástico e cineasta Cao Guimarães em diversas criações, inclusive nos vídeos "Quarta Feira de Cinzas", citado no início do texto e "Sopro" (2000).

Rivane Neuenschwander @ South London Gallery
3 agosto a 23 de novembro
Publicada na JungleDrums #60 Agosto